O QUE É A MEDALHA RAIMUNDO OLIVEIRA FILHO

Para tornar perpetuar a memória de tão significativa figura do mundo rotário, o Rotary Clube Fortaleza Alagadiço, no ano rotário 76/77, sob a presidência do companheiro Agapito Cavalcante Mota e por proposta do nosso companheiro Anselmo Albuquerque Frazão, ambos fundadores do Clube e aqui presentes, instituiu a Medalha Raimundo Oliveira Filho, objetivando homenagear rotarianos que se destacarem pelo seu trabalho em beneficio do movimento rotário.
Os rotarianos Martins Filho, Pedro Philomeno Gomes, Raimundo Girão, Ailton Gondim Lóssio, Cláudio Martins, Edson Queiroz, Virgilio Távora, Antonio Gomes Guimarães, Mozart Soriano Aderaldo, Sigefredo Pinheiro, José Barros Maia (Mainha), João Cavalcante, Bertrand Boris, Valdo Almeida e Edílson Brasil Soares, citando-se somente aqueles que já usufruem da glória eterna, receberam a Medalha Raimundo Oliveira Filho.
E nesta noite, o Rotary Clube de Fortaleza Alagadiço inclui em suas fileiras o outro cearense que voltou, EDNILO GOMES SOAREZ, outorgando-lhe a Medalha Raimundo Oliveira Filho.
E por que? Ednilo, o filho de d. Nila e do professor Edílson Brasil Soares, “um irrepreensível varão, diligente e responsável educador”, no dizer de Eduardo Campos, que o conheceu de perto, foi aprimorar seus conhecimentos na Escola Naval e dela saiu Guarda Marinha e logo a seguir promovido a Oficial. Aperfeiçoou-se na língua inglesa. Todavia, seus anseios não estavam completos, graduou-se em Administração de Empresas pela Faculdade de Ciências Econômicas do Rio de Janeiro. Muito jovem foi nomeado Secretário de Finanças do antigo Estado do Rio de Janeiro. No entanto, atendendo ao apelo de D. Nila e de seus irmãos Ednilton e Ednilze, interrompeu sua trajetória e veio colaborar na obra iniciada pelo professor Edílson Brasil Soares. Pelas mãos fraternas de Ednilton, ingressa no Rotary Clube de Fortaleza, fazendo companhia ao seu grande amigo Marcelo Caracas Linhares, também seu futuro companheiro no Instituto do Ceará. No Rotary, ao alcançar a presidência de seu Clube, dedicou particular atenção à escola mantida por aquele Clube. Ao Alagadiço sempre prestou sua colaboração. Na vida cultural, além de integrar o Instituto do Ceará, ao lado do nosso companheiro José Augusto Bezerra, pertence à Associação Brasileira dos Bibliófilos, à Academia Cearense de Retórica, e à Academia Fortalezense de Letras, da qual é ex-presidente. É sociólogo, e disso deu mostras com o livro “Miscigenação nos trópicos: tristeza ou alegria?”; é romancista e disso é testemunha o livro A Brisa do Mar, sobressaiu-se ainda como Pesquisador Literário em “Ramalho Ortigão, Um marco na literatura portuguesa”. Um intelectual que enobrece a Academia. Mas, sobretudo, Ednilo Soarez é rotariano em sua plenitude, cumpridor da prova quádrupula, assumindo o compromisso com a verdade, La verité avant tout, na linha de pensamento do cearense Farias Brito, o maior filósofo brasileiro, que cultuava a “Verdade como Regra das Ações”. Esta é uma síntese apertada dos feitos do Companheiro Ednilo.
Para complementar, convém uma rememoração histórica : Em 27 de agosto de 1824, aqui em Fortaleza, JOÃO GOMES DE MATOS, Pernambucano que se radicara em Parangaba, prestou o seguinte juramento:

JURO AOS SANTOS EVANGELHOS VOLUNTARIA E SOLENEMENTE DEFENDER E GUARDAR A RELIGIÃO CATOLICA E APOSTOLICA ROMANA. JURO DAR A ULTIMA GOTA DE SANGUE PARA MANTER E SER FIEL Á CONFEDERAÇÃO DO EQUADOR QUE É A UNIÃO DAS QUATRO PROVINCIAS AO NORTE DO CABO DE SANTO AGOSTINHO, E AS DEMAIS QUE PARA O FUTURO SE FOREM UNINDO DEBAIXO DA FORMA DO GOVERNO, QUE ESTABELECER A ASSEMBLEIA CONSTITUINTE. JURO FAZER CRUA GUERRA AO DESPOTISMO IMPERIAL, QUE PRETENDE USARPAR NOSSOS DIREITOS, ESCRAVIZAR-NOS, E A OBRIGAR-NOS A FAZER A UNIÃO COM PORTUGAL, A QUAL JAMAIS ADMITIREMOS POR NENHUM TITULO QUE SEJA. JURO, ENFIM, FAZER GUERRA ETERNA A TODO DESPOTISMO, QUE SE OPUSER Á LIBERDADE DA NOSSA PATRIA, E IGUALMENTE JURO OBEDIENCIA AO GOVERNO SUPREMO SALVADOR. ASSIM DEUS ME AJUDE.
Este foi o juramento dos integrantes da CONFEDERAÇÃO DO EQUADOR.
Pelo sentimento nativista que lhes movia, muitos confederados mudaram o sobrenome adotando os nomes de árvores, acidentes geográficos, animais típicos do Brasil, etc. Assim surgiram os ARARIPES, os IBIAPINAS, os SUCUPIRAS, os JUCÁS, os MORORÓS, ANTAS, e muitos outros.
JOÃO GOMES DE MATOS foi além; suprimiu o sobrenome MATOS e acrescentou BRASIL. JOÃO GOMES BRASIL fundou a enorme e influente família que se originou em Parangaba e lançou suas raízes em todos os campos, notadamente o do ensino.
EDNILO SOAREZ é tataraneto de João Gomes Brasil, enquanto o Marechal Casimiro Brasil Montenegro, fundador do Instituto Tecnológico da Aeronáutica – ITA, é seu trineto.
É de se destacar que JOÃO GOMES BRASIL fundou e dirigiu um Colégio e na sua esteira seu trineto EDILSON BRASIL SOARES, pai de Ednilo e também detentor da Medalha Raimundo Oliveira, igualmente fundou e dirigiu um Colégio e por nutrir, como seu antepassado, arraigados sentimentos nacionalistas, cuidou de dar ao Colégio o nome de 7 de SETEMBRO, a data maior da nacionalidade. E este Colégio agigantou-se e germinou a Faculdade Sete de Setembro, hoje dirigida pelos irmãos Ednilton, Ednilo e Ednilze, destacando-se o companheiro Ednilo como seu Diretor Academico.
Considerando tudo isso, o Rotary Clube de Fortaleza-Alagadiço sente-se no dever de outorgar a Medalha Raimundo Oliveira ao exemplar rotariano EDNILO GOMES DE SOAREZ.
Outro que vai receber a Medalha Raimundo Oliveira Filho é o Diretor de Rotary Internacional, o companheiro Antonio Hallage, paulista radicado em Curitiba e que pertence ao Rotary Clube de Curitiba-Leste, do qual foi presidente em 1984/1985.
MEDALHA RAIMUNDO OLIVEIRA – 2010 (II)

QUEM FOI RAIMUNDO OLIVEIRA FILHO

Nascido em 01.02.1909 na aristocracia da cidade de Granja, sendo filho do Coronel Raimundo Joaquim de Oliveira e de Maria Delmiro da Rocha, cedo veio para Fortaleza estudar no Instituto São Luis e em seguida ingressou no Colégio Militar, obtendo ao final do curso o titulo de Agrimensor. Seu pai, rico proprietário de terras e que constituíra em 1893 a casa comercial “Joaquim Pereira de Oliveira & Filhos”, uma das maiores de Granja, propiciou-lhe estudos superiores em Nova Iorque, onde se graduou em Engenharia Mecânica e em Engenharia Industrial.
Formado, trabalhou durante 4 anos na FORD em São Paulo. Ao regressar definitivamente para Fortaleza, tornou-se sócio da Organização Silveira Alencar Ltda., empresa de comercialização de veículos, permanecendo até 1964. No final da década de 40, juntamente com José Carneiro da Silveira, Alber Vasconcelos, Vicente de Castro Filho (Bené de Castro), José Maria Philomeno Gomes e Deusemar Lins Cavalcante, implantou, na qualidade de Diretor Superintendente, a empresa Fortaleza Refrigerantes S.A, fabricante da Coca-Cola. Foi também Presidente da Imobiliária Agrícola Raimundo Oliveira S.A,, empresa dedicada ao beneficiamento da cera de carnaúba. Além de todas essas atividades, Raimundo Oliveira Filho teve participação atuante na Associação Comercial do Ceará, integrando por diversas vezes a sua Diretoria, sendo seu Presidente no período de 1959/1960.
Foram seus irmãos:
1) Joaquim Pereira de Oliveira Neto (Quincas Oliveira), com dons de oratória e voltado para as lides intelectuais, foi o sustentáculo do Grêmio Lítero-Cívico Valdemiro Cavalcante, na Granja. Quincas casou-se em 1920 com Maria Elisa Xavier, filha do grande importador e exportador Cel. Ignácio Xavier e de sua mulher Elisa Barreto Xavier, esta irmã do poeta Livio Barreto, um dos fundadores da Padaria Espiritual. Faleceu em 1946, deixando descendentes.
2) Médico Francisco Delmiro de Oliveira (Dr. Oliveirinha), chefe político em Granja. Foi Deputado Federal na década de 60. Casou-se com Zeli de Almeida Fortuna, filha do Cel. Ignácio de Almeida Fortuna, tradicional chefe político durante 50 anos, morrendo com 97 anos. O Cel. Ignácio era sobrinho em 2º grau do Coronel Pessoa Anta e do Senador Paula Pessoa. Sem filhos, o Dr. Oliveirinha adotou Marilia Fortuna Oliveira, sobrinha-neta de sua esposa, e que é a viúva do Médico Juarez Cruz de Vasconcelos, ex-Prefeito de Granja e tio dos nossos companheiros Meton, Luiz e Roberto Vasconcelos.
3) Prudenciana (Branca), casada com o português Joaquim Gonçalves da Hora. Sem filhos.
4) Iná (Inácia) Oliveira Arruda, casada com o Dr. Vicente Arruda, natural de Sobral. Pais do Dr. Esmerino Arruda, ex-deputado federal e suplente de Senador e atual Prefeito de Granja.
Figura destacada de sua família foi o seu Tio, o Monsenhor Manoel Vitorino de Oliveira, vigário de Tamboril e posteriormente de Granja durante aproximadamente 30 anos.

No Rotary, a carreira de Raimundo Oliveira Filho caracterizou-se por rápida ascensão; admitido em 28 de setembro de 1939 como Sócio do Rotary Club Fortaleza, já no ano rotário de 1942/1943 era escolhido Presidente e no ano seguinte era eleito, aos 33 anos de idade, Governador do Distrito 26, que na época compreendia o vasto território de Pernambuco ao Acre. Após o exercício da Governadoria, outras funções foram-lhe confiadas, culminando com o cargo de Diretor de Rotary Internacional para o período de 1966/1968. Dada a sua liderança, seu dinamismo, sua competência, seu completo domínio da língua inglesa, e o elevado grau de responsabilidade de que era detentor, não se tem dúvida de que a Raimundo Oliveira Filho estava reservada a Presidência de Rotary Internacional. No entanto, um câncer o atingiu no inicio dos anos 70.
Casou-se Raimundo Oliveira Filho com Maria Iracema Gentil, neta de José Gentil Alves de Carvalho, o fundador da família Gentil. Deixou descendentes, destacando-se o seu neto Adolfo Bichucher, colaborador das campanhas do Alagadiço.
MEDALHA RAIMUNDO OLIVEIRA FILHO – 2010 (I)
Para ganhar tempo, saúdo os presentes na pessoa do Companheiro Meton Vasconcelos, decano dos Governadores de Rotary.
Antes de mais nada, o Rotary Clube de Fortaleza -Alagadiço quer demonstrar sua gratidão àquele que por primeira vez o presidiu há quarenta e um anos. Aqui está o professor Itamar Barreto Medeiros, fundador do Alagadiço e seu primeiro Presidente, que hoje volta a integrar-se ao Clube na condição de Sócio Honorário para fazer companhia ao Senador Lúcio Alcântara.
Senhoras e Senhores ! Quando Portugal separou-se em 1640 da Espanha, após 60 anos de união dinástica, o novo monarca, o Duque de Bragança, aclamado D. João IV, tinha 3 tarefas pela frente. A primeira, na Europa, o reconhecimento internacional do Reino e do trono, convindo frisar que nessa tentativa encontraria sérias dificuldades, destacando-se a resistência do Papado por quase trinta anos; a segunda, na Península Ibérica, a defesa das fronteiras contra o inevitável ataque do poderoso vizinho; e a terceira, no ultramar, a reivindicação das colônias que, na América, na África e na Ásia, haviam sido perdidas para os Paises Baixos. No Brasil, a Companhia das Índias Ocidentais, que representava os interesses da Holanda, havia dominado o litoral do Nordeste entre o Ceará e o rio São Francisco.
Como se sabe, o domínio holandês no Brasil se estendeu de 1630 a 1654. As negociações diplomáticas para a recuperação do Nordeste se iniciaram em 1641 e somente foram concluídas em 1669, com a definitiva compra através da entrega do sal de Setúbal e de duas províncias no Malabar, na India. Os holandeses foram duros nas negociações pois não se conformavam com a perda do açúcar do Nordeste. No decorrer das negociações, os diplomatas dos Paises Baixos apresentaram em 1848 os famosos 19 Artigos contendo suas reivindicações. O 1º artigo, que é o que nos interessa de perto, previa a “Restituição inteira de todas as fortalezas e terras que possuíam desde o Rio Real, da parte do Sul, até o Rio Grande, da parte do Norte, deixando a Capitania do Maranhão à Sua Majestade, porém que a do Ceará, se desmantelaria e ficasse deserta”.
Esta proposta foi rejeitada por D. João IV, não sem antes receber o parecer favorável do Padre Antonio Vieira, personalidade importante nas negociações. O Padre Vieira lançou acusações contra diversos Conselheiros do Rei, tachando-os de ignorantes. O Companheiro Ednilo, ex-Oficial de Marinha, há de compreender muito bem. O Padre Vieira dizia que um desses Conselheiros era de tal modo ignorante que, ouvindo que o apresamento de naus portuguesas em águas brasileiras devia-se a que os barcos holandeses sempre ganhavam o barlavento, propusera que “se mandasse fazer logo uma fortaleza nesse barlavento”, com o que escusaria de “ter aí esse valhacouto”. O certo é que graças a ignorância ou não desses Conselheiros, o Ceará não permaneceu como “terra de ninguém” como queriam os holandeses. Refutada a proposta, em 1849 os holandeses para aqui se deslocam sob o comando de Matias Beck e fundam Fortaleza. E esta “terra de ninguém”, que não tinha prata nem ouro, nem pedras preciosas, conheceu desde o principio grandes calamidades; já em 1603 seu primeiro desbravador, Pero Coelho de Sousa, foi vencido por inclemente seca; em 1607 viu o sangue de seu primeiro mártir, o Padre Francisco Pinto, jorrar na Serra da Ibiapaba. Terra desafortunada, mas que foi compensada pela heroicidade de seus filhos, habituados a lutar contra as adversidades. Resultado de caldeamento intenso de índios, europeus, árabes, judeus (cristãos novos) e ciganos. Poucos negros, é certo, pois o cearense não admitia a escravidão e por isso o Ceará recebeu o título de “Terra da Luz”, por ser a primeira Província a libertar seus escravos. Promovemos uma autêntica diáspora. Somos exportadores de cérebros. As fronteiras do Ceará se alargaram, pois o cearense tem natureza universal. Fomos conquistar o Acre, fomos ensinar o gaúcho a fazer charque; fomos os primeiros voluntários da Guerra do Paraguai; Jovita Feitosa vestiu roupas masculinas para se integrar ao contingente de voluntários, enquanto Carolina Sucupira entregou seu filho primogênito. O General Tiburcio sagrou-se herói da Guerra do Paraguai; o General Sampaio sagrou-se como Patrono da Infantaria.
Companheiro Antonio Hallage! Um cearense, Amintas de Barros, hoje nome de rua em sua querida Curitiba, saiu do Aracati para lutar na Guerra do Contestado. Foi o avô do Governador Nei Braga. Nei, como gostava de ser chamado, com seu tino político e conhecendo sua competência, lhe nomeou Diretor da companhia de eletricidade do Paraná, inicio de sua brilhante e incomparável trajetória profissional.
São milhares os cearenses que daqui saíram e não retornaram. José de Alencar, o maior romancista; Capistrano de Abreu, o maior Historiador; Clóvis Beviláqua, o autor do Código Civil. Alberto Nepomuceno, o compositor laureado; Moura Brasil, o renomado oculista; Eleazar de Carvalho, o mítico Regente da Orquestra Sinfônica de Nova Iorque; o pianista Jacques Klein. Foram fundar o Instituto de Tecnologia da Aeronáutica, o afamado ITA, que tem 30% de cearenses dentre seus alunos; foram dirigir a USIMINAS, foram ser Ministros de Estado e dos Tribunais Superiores. Diplomatas, sobressaindo nessa área o Embaixador Hildebrando Acioli. Fincou suas raízes em Curitiba o Cel. Tiburcio Cavalcante, Diretor da Rede Viação Paraná-Santa Catarina, e tio de Raimundo Girão, o fundador de Rotary em Fortaleza. Dois exerceram o cargo de Presidente da República. Daqui saiu Rachel de Rachel, a primeira mulher a ingressar na Academia Brasileira de Letras. Daqui saíram mais de 20 bispos, mas recordarei somente Dom Lino Deodato, o 18º Bispo de São Paulo, a terra do Companheiro Antonio Hallage; criou o Santuário de Aparecida e lá morreu em uma Visita Pastoral. João Thomé de Sabóia e Silva saiu de Sobral para fundar o primeiro Rotary Clube do Brasil, situado no Rio de Janeiro, dele sendo o primeiro Presidente. Finalmente, um também não voltou : o jovem diplomata Ednildo Gomes de Soarez; em 15 de novembro de 1971, ao prestar serviços ao governo brasileiro em Santiago do Chile, foi vitima de um acidente de helicóptero e lá deixou sua vida. Poderia citar centenas que honraram esta terra além de suas fronteiras nos mais diversos campos de atividades.
Muitos foram e não voltaram. Mas dois voltaram! Raimundo Oliveira Filho voltou.
CEARÁ – ‘TERRA DE NINGUEM”

Quando em 1640 Portugal separou-se da Espanha, após 60 anos de união dinástica, o novo monarca, o Duque de Bragança, aclamado D. João IV, tinha 3 tarefas pela frente. A primeira, na Europa, o reconhecimento internacional do Reino e do trono, convindo frisar que nessa tentativa encontraria sérias dificuldades, destacando-se a resistência do Papado por quase 30 anos; a segunda, na Península Ibérica, a defesa das fronteiras contra o inevitável ataque do poderoso vizinho; e a terceira, no ultramar, a reivindicação das colônias que, na América, na África e na Ásia, haviam sido perdidas para os Paises Baixos. No Brasil, a Companhia das Índias Ocidentais, que representava os interesses da Holanda, havia dominado o litoral do Nordeste entre o Ceará e o rio São Francisco. Como se sabe, o domínio holandês no Brasil se estendeu de 1630 a 1654 no campo militar e político. As negociações diplomáticas para a recuperação do Nordeste se iniciaram em 1641 e somente foram concluídas em 1669, com a definitiva compra através da entrega do sal de Setúbal e de duas províncias no Malabar, na India. Os holandeses foram duros nas negociações pois não se conformavam com a perda do açúcar do Nordeste. No decorrer das negociações, que incluíram subornos de altas quantias pagas pelos portugueses, os diplomatas dos Paises Baixos apresentaram em 1848 os famosos 19 Artigos contendo suas reivindicações. O 1º artigo, que é o que nos interessa de perto, dizia: “Restituição inteira de todas as fortalezas e terras que possuíam desde o Rio Real, da parte do Sul, até o Rio Grande, da parte do Norte, deixando a Capitania do Maranhão à Sua Majestade, porém que a do Ceará, se desmantelaria e ficasse deserta”. Esta proposta foi rejeitada por D. João IV, não sem antes receber o parecer favorável do Padre Antonio Vieira, personalidade importante nas negociações, tendo permanecido vários meses na Holanda representando Portugal. O Padre Vieira lançou diatribes contra diversos Conselheiros do Rei, tachando-os de ignorantes; dizia que um desses Conselheiros era de tal modo ignorante que, ouvindo que o apresamento de naus portuguesas em águas brasileiras devia-se a que os barcos holandeses sempre ganhavam o barlavento, propusera que “se mandasse fazer logo uma fortaleza nesse barlavento”, com o que escusaria de “ter aí esse valhacouto”. O que é certo é que graças a ignorância ou não desses Conselheiros, o Ceará não permaneceu como “terra de ninguém” como queriam os holandeses. Essas informações constam do livro O negócio do Brasil, Portugal, os Países Baixos e o Nordeste (1641-1669), de Evaldo Cabral de Mello – Lisboa – Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses – 2001.
ESCRAVA ADJUDICADA PARA PAGAMENTO DAS CUSTAS

No dia 16 de novembro de 1877, faleceu em Pedra Branca, Ceará, o Major Manoel Joaquim Cavalcante, deixando viúva d. Joanna Baptista Vieira. No dia 7 de dezembro subseqüente, o Juiz de Direito, doutor José Patrício de Castro Natalense, acompanhado do escrivão Delfino Alves Pinheiro e Lima, comparece à casa da viúva d. Joanna Vieira para tomar por termo, sob juramento sobre os Santos Evangelhos, as primeiras declarações da inventariante. Assinou o termo, a rogo da inventariante, por não saber ler, o seu filho José Cavalcante de Albuquerque. Antes de relacionar os bens existentes, d. Joanna declarou como herdeiros, dentre outros, seu filho Dr. Manoel Joaquim Cavalcante de Albuquerque, com 35 anos e exercendo o cargo de Juiz de Direito em Russas. Em 7 de abril de 1878, o Dr. Manoel Joaquim formula nos autos do Inventário o seguinte requerimento:
“Illmo. Snr. Juiz de Órfãos. Diz Manoel Joaquim Cavalcante de Albuquerque que, tendo sido separada para pagamento das custas a escravinha Maria, no inventário do seu finado pai, que se está procedendo por este Juízo, requer a V.Sa. se digne mandar adjudicar-lhe, ficando o suplicante responsável pela quantia por que foi avaliada a mesma escravinha. Nestes termos o suplicante pede a V. Sa. se digne deferir na forma requerida”. O Juiz de Direito deferiu o requerimento do dr. Manoel Joaquim e posteriormente consignou: “Julgo a partilha, por sentença, e mando que se cumpra e guarde, como nela se contem; adjudico ao herdeiro Dr. Manoel Joaquim Cavalcante de Albuquerque a escravinha Maria, separada para o pagamento das custas, pagas as mesmas pro rata. Pedra Branca, 18 de setembro de 1878. José Patrício de Castro Natalense”. Nos autos do Inventário, arquivados no 1º Cartório da Comarca de Pedra Branca, consta a relação dos escravos, num total de 10, pertencentes ao Major Manoel Joaquim Cavalcante, sendo Maria, a de nº 9, com 6 anos de idade, mais ou menos, mulata, de filiação ignorada, avaliada pelos louvadores (avaliadores) em duzentos mil reis.
PROFESSOR NA PROPRIA CASA


Conforme levantamento do MEC, 4671 escolas de educação básica funcionam na casa da própria professora; essa deplorável constatação é o prolongamento de um passado remoto. A educação sempre foi tratada com descaso. Ao se criar uma Vila, cuidava-se da instalação da Câmara, do Cartório e da Cadeia. Escola, nada. Quando se criava uma Escola de Primeiras Letras cabia ao professor se encarregar de tudo. Da casa e do mobiliário. Tome-se como exemplo o caso de Pedra Branca, no interior deste Estado, que teve em 18 de Julho de 1856 criada uma Escola de Primeiras Letras para meninos.
De acordo com documentos guardados no Arquivo Público do Ceará, em 25 de Abril de 1857 o Padre João do Nascimento e Sá entrou em exercício no cargo de Professor de Primeiras Letras em Pedra Branca. Um ano após, para receber o seu ordenado, o Padre, humildemente, requeria que “precisa a bem de seu direito, e justiça, que V.Sa atteste se o suplicante tem feito Aula, desde que entrou em exercício de Professor, em uma sua Casa separada, servindo só para o mister da Escola com mesa, cadeira, bancos feitos a sua custa, e se teve utensílio algum”.
Em 26 de Abril de 1858, o Inspetor Escolar Manoel Joaquim Cavalcante disse: “Attesto que o Reverendo João do Nascimento e Sá, Professor Público interino de primeiras letras da Povoação da Pedra Branca, tem funcionado desde o dia em que entrou a exercer os deveres de seu Magistério em uma casa própria e só ocupada neste mister, tendo comprado a sua custa bancos, cadeiras, mesa, sem que lhe fornecesse utensilios alguns. He o que me cumpre attestar”.
Para obter o atestado, que lhe daria o direito de receber seus vencimentos, o Padre João Sá, o primeiro Professor de Pedra Branca e seu primeiro Vigário, ainda “pagou cento e sessenta reis de sello”, assim o funcionário da Coletoria registrou no atestado.
O Padre João Sá exerceu o sacerdócio do Magistério até maio de 1867, sucedendo a Manoel Joaquim Cavalcante no cargo de Inspetor Escolar e desempenhou as funções deste cargo durante 22 anos. Faleceu no dia 21 de Outubro de 1890 com mais de 80 anos, sendo sepultado ao pé do Altar Mor da Matriz de Pedra Branca.
CAMELOS EM QUIXERAMOBIM

O Barão de Studart registra que em 24 de julho de 1859 “chega ao porto de Fortaleza a barca franceza Splendide procedente de Argel, donde partiu a 21 de junho, conduzindo 14 dromedarios mandados vir pelo Governo Imperial com destino a esta província, acompanhados por 4 Arabes”. Parte desse lote de camelos foi destinado a Quixeramobim aos cuidados do Padre Antonio Pinto de Mendonça, pároco de Quixeramobim, Visitador da Província, Vice-Presidente da Província. Além dessas atividades, o Padre Pinto de Mendonça era grande criador de gados e arrematante do dízimo de gados grossos. É sob essa qualidade do Padre Mendonça que em 27 de abril de 1859 o Presidente da Província João Silveira de Souza profere despacho, assim iniciando: “O Presidente da Província, considerando sobre a matéria que lhe foi dirigida em 21 de fevereiro findo, pelo proprietário e criador de gados do Município de Quixeramobim, cônego Antonio Pinto de Mendonça, arrematante do dizimo de gados grossos do mesmo município em 1858, na qual consulta sobre o modo pelo qual se deve pagar o sobredito dizimo, em um ano posterior ao da arrematação, quando o respectivo arrematante não o procure cobrar naquele, se em garrotes, como arrematara, ou se em bois feitos, à vista do tempo decorrido, e se no numero integral à ferra, ou com abate correspondente a cada ano de demora”.....Credenciais portanto não faltavam ao Padre Pinto de Mendonça para contratar com o Governo da Província no sentido de criar os camelos em suas fazendas do Quixeramobim. No Arquivo Público do Estado do Ceará encontram-se três cartas do Padre Pinto de Mendonça dirigidas ao Presidente da Província sobre o assunto; em 07 de novembro de 1859 apresenta ao Presidente da Província os senhores Joaquim Felismino da Costa e Manoel Franklin de Alcântara, contratados por 20$000 mensais para aprenderem a tratar dos camelos; em 23 de novembro comunica ao Presidente ter dado ordens aos seus procuradores em Fortaleza para receberem os camelos e assinarem o contrato que deve ser firmado com o governo. Finalmente, em 02 de novembro de 1860 o Cônego Antônio Pinto de Mendonça informa ao Presidente Antônio Marcelino Nunes Gonçalves que recebeu o lote de camelos nos últimos dias de Dezembro de 1859. Até o mês de Maio estiveram bem, havendo três fêmeas parido. Do mês de Maio em diante, viram-se acometidos de terrível lepra e inchações nas articulações e, apesar dos esforços empregados, apenas um escapou e está sendo devolvido ao governo. E pede que o contrato fique sem efeito.